Design é, essencialmente, comunicação. E comunicar é natural.
Todos os dias usamos diferentes ferramentas de comunicação: palavras, gestos, olhares.
Comunicar é um acto social, aproxima-nos das pessoas e, ao mesmo tempo, afirma a nossa identidade. Hoje em dia, este acto é mais estimulado por todos os meios de comunicação, da televisão ao telemóvel, de sinalética à internet. E é enquanto meio de comunicação que o design existe, é estar entre um lado e outro, estar no meio, ser um meio.

É por isso que, quando penso nas formas de intervenção artística num contexto comunitário, penso que o design de comunicação é uma ferramenta para o desenvolvimento. Porque é uma forma de pôr as pessoas a pensar sobre como se comunica uma ideia, uma sensação ou um protesto. O que se quer dizer, a quem e, sobretudo, como. Há milhares de formas de o fazer.
O que pode realmente tornar todo este processo mais interessante é a participação das pessoas. Já não se trata de conceber uma estratégia de comunicação para um cliente anónimo e invisível. As pessoas estão no centro e o processo de criação de comunicação parte delas e são elas que o transformam. É deste modo que o processo participativo se torna, na verdade, um meio de afirmação individual e comunitário, ou seja, uma ferramenta de empowerment.

No primeiro contacto com os grupos de Teatro Fórum da Cova da Moura e Vale da Amoreira propus um exercício de concretização rápida (3 horas) com o objectivo de fazer uma introdução ao trabalho de um designer. Sobretudo o processo de passagem de uma ideia à imagem, como se transforma uma ideia em comunicação visual, estando consciente daquilo que se quer transmitir e para quem.
O exercício consistia em criar um partido político. À partida pode parecer um exercício complicado mas quando se trata de criar um grupo com os mesmos interesses e defender as mesmas ideias torna-se fácil, até bastante espontâneo. Falar de temas tão pessoais como sair à noite, a casa onde se vive ou a importância de abraçar revelam muito mais do que aparentam. Fazem-nos pensar sobre discriminação, pobreza e comunidade. Melhor, fazem-nos falar.
Assim, para criarem o seu próprio partido político os grupos tinham de imaginar uma representação para o seu partido, um símbolo, e escolher um candidato de entre os membros do grupo. No final do workshop, cada partido fez um mini-comício, apresentando os seus ideais.
O resultado foi surpreendente! (como podem ver neste blog)

Com os DR+K (Cova da Moura) desenvolvi um novo workshop com o propósito de criar o material de comunicação (poster e flyer) para a peça IN TER ESSE.
Como o espectáculo se dirigia aos habitantes da Cova quis trabalhar na rua e envolver a população local. Criar o material de comunicação seria incluir as pessoas a quem ele era destinando.
A experiência foi inesperada e muito divertida. Depois de alguma azáfama, lá estavamos às 11h da manhã, ao sol, no meio da rua, enchendo a rua com cadeiras, cadeiras que vinham de várias casas dali da rua.. moradores que abriam as suas casas, sorriam, davam ideias, ajudaram-nos a fechar a rua.
E tudo isto num Sábado de manhã.. entrámos em prédios, subimos as escadas até ao andar de cima, dissemos bom dia, falámos com moradores e tirámos fotos.
Fotos que se transformaram em cartaz. E o cartaz dizia IN TER ESSE, escrito com cadeiras, vistas de cima numa rua da Cova da Moura. Cadeiras onde se sentaram os actores da peça.

Da parte da tarde, fomos à descoberta de letras. Se procurarmos, encontramos letras em todo lado. São quase invisíveis porque nos habituamos a ler informação de forma tão automática, que não nos apercebemos que lemos, lemos, lemos durante grande parte do dia.
E se procurássemos estas letras invisíveis em objectos do quotidiano?
E passaram-se horas, passeando pela Cova da Moura, tirando fotos, já quase em clima de competição divertida, com letras a saltarem do chão, das portas, do céu, da paisagem, do churrasco, do lixo, do gradeamento...
Com estas fotos desenvolveu-se o flyer para a peça IN TER ESSE.

Esta experiência foi divertida, e também marcante. Mostrou-me a força e energia que os objectos de comunicação ganham com o cruzamento de processos e a transdisciplinariedade. Teatro e Design são duas formas de comunicação que se podem cruzar.
Aguardo com entusiasmo a oportunidade de desenvolver um projecto de forma mais longa e continuada com a GTO.LX.

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